Beijo grego | Oficina Experimental de Poesia

Em 2015, ofereci uma oficina de tradução pt-pt na Oficina Experimental de Poesia. Reproduzo aqui o texto que publiquei à época no site do coletivo.

Com a oficina “Beijo grego”, propus exercícios para a tradução de poemas do português para o português. A partir de uma tradução coletiva do poema de Manuel Bandeira (“A Realidade e a Imagem”), partimos para a tradução individual de um poema contemporâneo. Foram traduzidos poemas de Mariana Botelho, Leonardo Marona, Lucas Matos e de Augusto Meneghin.

Os resultados foram impressionantes. Cada transcriador (esse tradutor que assume a sua inventividade) privilegiou diferentes aspectos dos poemas para a sua tradução.

O poeta Guilherme Gonçalves, por exemplo, concentrou-se na imagem formada pelo poema de Mariana Botelho, para refazê-la a partir de apenas dois versos: a tradução se deu da linguagem prosaica para a língua curta da palavra-imagem. Já a poeta Grazielle Alves, optou por traduzir o mesmo poema de Botelho para a linguagem da noite.

Simone Vieira traduziu o sol carteiro infalível de Augusto Meneghin pela solidão incontornável de uma família vazia. E Heyk Pimenta optou por traduzir o poema de Leonardo Marona a partir de uma relação de isomorfia: manteve a forma, substituindo os significantes do amor e do cansaço pelas carnalidades da comida e pela intoxicação das fumaças.

Confiram essas soluções e algumas outras.

POEMAS

(A partir de Estudos sobre o silêncio, de Mariana Botelho)

 

GUILHERME GONÇALVES

Palavras empedram
Um pássaro
É puro voo

GRAZIELLE ALVES

Leitura sobre a noite

ficamos estáticos diante
das fases
lua azul
encantamento
intangível – Ah! Ausência
observamos
e ela revela – se cheia
brilhante vibração
no meio da escuridão

FELIPE DE OLIVEIRA MENEZES

Estávamos paralisados
Diante da ameaça
Terror
Política fé armas
Iludiamos
Sobre a escrita
As pombas brancas
Acertavam o alvo.

(A partir de “Amanhecer”, de Mariana Botelho)

ANA CAROLINA DE ASSIS

Envelhecer

aquecer o cabelo descascado de
moscas
tê-lo descalço agora em
charutos
sentar-se branco de
ruas nos
sustos

CAROLINA TURBOLI

Devagar

A gravidez do candelabro
No íntimo
O árbitro na loucura
Da insônia infantil
A sorte da antimatéria
E ninguém lembrará
Do amanhã

(A partir de “Ninguém nas manhãs…”, de Augusto Meneghin)

SIMONE VIEIRA

ninguém nas janelas
alegra quartos
a família vazia
no chão


(A partir de “lohengrin – overture”, de Leonardo Marona)

HEYK PIMENTA

no meio dos dedos do moinho aparece o olho da fumaça
que os cachorros cheiram e podem cheirar.
se você não é um cachorro, a estrada barrenta
chega ao moinho, ao pastel de molho
de quem espremeu tomate pra colorir a fumaça.
tem tempo, pastel trabalho, cordão queimado no peito
agarra como dá com a poeira a velhice do abraço
um domingo estrada nunca falta
pro saco de arroz vazio, mas pesado, da família.