Tradução PTPT | CMAHO

Oficina de Tradução PT-PT
28/01/2017
Local: CMAHO
4h de duração

Em 2016, fui convidado pela artista argentina Julieta Hanono para colaborar com sua exposição “Ils, Ellos, Eles” (com curadoria de Izabela Pucu, então diretora do Centro Municipal de Artes Helio Oiticica) com um Laboratório de Tradução Desorientada, Desfuncionalizada e Suspensa. Traduzi alguns trabalhos de autoficção da artista para diferentes linguagens. O procedimento foi parecido com o que eu já realizara, no mesmo ano, com um poema de Sylvia Plath, I am Vertical (publicado na revista Escamandro). O trabalho para a exposição resultou em uma sala, um laboratório, com as traduções suspensas e uma mesa que dava algumas ferramentas para que os visitantes se aventurassem em continuar o trabalho, virtualmente infinito.

Dessa colaboração, surgiu a ideia de que realizássemos uma Oficina de Tradução PT-PT — desde 2015 faço experimentações com a tradução e oficinas desse tipo, quando fui impactado pela formulação de Walter Benjamin, em Die Aufgabe des Übersetzers (“A tarefa do tradutor”), em que o filósofo afirmava: “a tradução é uma forma”. Como trazer a forma para a pura atividade, evitando que ela recaia num molde estático atemporal, isto é, no congelamento da fôrma? Isso fora tensionado ainda pela leitura de Nay Rather, de Anne Carson, que em sua “revolta contra o clichê” realizou experimentações (a partir de um poema de Estesícoro) que alimentaram as minhas.

Se a tradução é uma forma, ela afeta pelas sensações mais que pelo conteúdo, como disse Lukács em “Sobre a essência e a forma do ensaio”? Isto quer dizer que ela, a tradução, tangencia uma radical autonomia com relação ao original? Segundo Benjamin, a lei da forma da tradução se encontra no original — pode, no entanto, o original apenas disparar uma tradução desvairada, que o traia deliberadamente? Pode essa tradução ainda ser chamada como tal? E mais, devem as traduções realizar esse caminho pecaminoso? Trata-se de um desserviço da parte dos tradutores experimentais?

A Oficina, que ocupou o auditório do CMAHO, propôs traduzir poemas de Angélica Freitas, Marcelo Reis de Mello, Adelaide Ivánova, Fabio Weintraub, Mariana Botelho, Fernando Abreu, Ana Martins Marques e Dimitri Rebello para estranhos idiomas dentro do português. Esses idiomas foram formados a partir da consideração, pelos participantes da oficina, de 1 página de documentos como: Manifesto Dadaísta de 1918 assinado por Tristan Tzara, Gênesis da Bíblia de Jerusalém, Meu Tio Araweté de Guimarães Rosa, o artigo A Prisão de Carlos Marighella, o discurso de Angela Davis na Marcha das Mulheres contra Trump, etc.

Para essa tarefa impossível, contei com contribuições teóricas e poéticas de Anne Carson, Haroldo de Campos, Guilherme Gontijo Flores, Maria Gabriela Llansol, Akira Kurosawa, Octavio Paz e Walter Benjamin.