Oficina de Sonhos | CIEP Tancredo Neves

Oficina de criação a partir de sonhos
31/07/2017
Local: CIEP Tancredo Neves
2h de duração

Mais importante do que se perguntar sobre o que acontecerá com a poesia quando ela for levada às mais distintas atividades — tão distantes do mergulho na linguagem que poéticas tradicionais e contemporâneas justamente defendem como ação fundamental de qualquer poesia — é se perguntar o que acontece com essas atividades quando, querendo ou não, de maneira mais ou menos consciente, os envolvidos nessa atividade se molham descuidadamente (às vezes apenas as mãos, às vezes os cabelos) nesse mar de palavras e conexões linguísticas que configura o fazer poético. Um fazer que suspende a lógica do tempo, e a todo momento parece interromper as outras atividades. E o faz menos por qualquer qualidade do contato com esta água estranha do poema, do que por mero contágio. O que acontece, por exemplo, quando profissionais da educação do município do Rio de Janeiro interrompem a primeira reunião de organização do semestre para escrever?

Esta é apenas a primeira possibilidade da pergunta, que pode ser enunciada de outra posição, com diferentes efeitos: por que professores participam de uma oficina de poesia, voltada basicamente para a escrita, logo após o café-da-manhã, quando poderiam, de fato, trabalhar no que importa para organizar, produtivamente, o seu semestre? Eu me fiz essa pergunta durante alguns dias, antes de decidir que oficina realizar com esses professores, do CIEP Tancredo Neves, localizado no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, quando a amiga, professora e pesquisadora Aldenira Mota me convidou para realizar uma atividade. Eu substituiria o amigo e escritor Luiz Guilherme Barbosa (vocês podem acompanhar o trabalho dele aqui), que também realiza oficinas literárias no Colégio Pedro II de Realengo, onde atua como professor de Português e Literatura. Eu me fiz essa pergunta, então, e troquei mensagens aflitas com o Luiz Gui, que me encorajou a dar essa oficina de sonhos (dei essa oficina em diferentes formatos, e ela é uma derivação de alguns estudos pessoais com meus diários de sonhos e de minhas pesquisas em Psicanálise e Surrealismo). Só agora reconheço a relação dessa oficina com as perguntas que levanto aqui, um pouco desajeitadamente.

No blog do CIEP, a professora Aldenira denominou a oficina como “o universo do sonho”. A denominação é precisa. Se o universo é o conjunto de todas as coisas que existem sobre uma determinada ordem, uma oficina de literatura, seja ela qual for, nas condições em que ocorreram, será sempre um “universo do sonho”, na medida em que submeterá a lógica produtiva do trabalho e da organização racional a ações improdutivas e analógicas. Há, portanto, uma irrupção de um outro conjunto de coisas que ameaça o universo anterior. Em outras palavras, trata-se de uma fissura universal. É claro que um tal acontecimento não se passará como um espetáculo, ou uma sensação de hiper-realidade, como se passa geralmente com os filmes mais bem produzidos por Hollywood. Apesar da classificação de “fissura universal”, e de sua remissão a espécies de buraco negro, trata-se, muito mais, de um deslocamento mínimo, em que tudo, aparentemente, está em seu mais perfeito lugar.

E o que acontece quando professores interrompem, brevemente, por 2 horas, o seu planejamento, e trocam entre si relatos de sonho, risos de nervoso diante do absurdo, do erótico ou do impossível,  e, por fim, textos? O que acontece quando trabalhadores não apenas vendem o seu tempo, mas se apropriam dele a partir de práticas improdutivas? O que é exatamente que se passou ali, naquela manhã, no CIEP Tancredo Neves?

Deslocando mais uma vez a pergunta, o que acontece com um poeta quando ele desloca a sua atividade para outra esfera da vida, quando coloca os seus próprios processos sob o trabalho coletivo de outra classe de trabalhadores? O que nele, silenciosamente, se distribui?

Ao fundo, algumas imagens, que no exercício de escrita foram misturadas livremente aos relatos de sonhos.