“Ils, Ellos, Eles” | CMAHO

> Participação na exposição
“Ils, Ellos, Eles”
, de Julieta Hanono
no CMAHO, de nov.16 a fev.17,
com curadoria de Izabela Pucu.

Em meados de 2016, a então diretora do Centro Muncipal de Artes Helio Oiticica, Izabela Pucu, proporcionou um encontro entre eu e a artista argentina Julieta Hanono, cujo trabalho de auto-tradução ficcional opera no limite tangenciado pelo texto, pela imagem e pela voz. Esse internacionalismo dos meios expressivos é, de alguma forma, análogo ao internacionalismo da autora, nômade desde o fim da adolescência, na experiência traumática da ditadura argentina, que sequestrou Julieta quando ela integrava o grupo revolucionário dos Montoneros.

Dessa lesão histórico-corporal precoce surgiu uma lesão programada e consciente na linguagem, com a qual fui motivado a trabalhar. Como, no entanto, me aproximar do trabalho de uma artista cujos limites impostos pela vida tanto a aproximaram quanto a distanciaram da vida (quer dizer, é gritante, nos trabalhos de Julieta, a proximidade com os seus dados biográficos, ao mesmo tempo que o coeficiente de invenção e negação do empiricamente dado opera a todo vapor)?

Julieta Hanono

A solução, fabulada em diálogo com Julieta e com Izabela Pucu, foi fazer convergir o que em mim era mais experimental à época (a prática da “tradução como forma”, como insinuou certa vez Walter Benjamin), e unir ao que em Julieta Hanono era mais “procedimental”, a lesão programada da língua. O resultado foi um LABORATÓRIO DE TRADUÇÃO DESORIENTADA, DESFUNCIONALIZADA E SUSPENSA, composto por dois trabalhos:

15937236_993286490771456_6996757488089904473_o1. um conjunto de traduções experimentais de alguns textos ficcionais de Julieta, lesionando as estruturas do que a própria artista ergueu, que foram pendurados como que em conjuntos de fios pela sala;

2. uma mesa propositiva que convidava o espectador a realizar a tradução experimental, lesionando as estruturas do que eu mesmo havia pendurado na sala, e convocando, ainda, ao lesionamento da linguagem de todo o mundo, em uma tarefa impossível e infinita. Parte dos textos que “integravam” a mesa foram ainda deslocados e suspensos juntamente com as traduções experimentais, gerando uma leitura atravessada da proposição com a experiência.

Uma terceira ação foi ainda realizada, uma Oficina de Tradução PT-PT, em jan. de 2017, no auditório do CMAHO.

Os originais lesionados e as traduções que realizei podem ser lidos aqui.

A proposição da mesa pode ser lida aqui, e os fragmentos que saltavam para o lado das traduções, aqui.

Izabela Pucu (fotografia: Bárbara Lopes)