Desolação e analogia | “Treme ainda” de Fabio Weintraub

Texto publicado originalmente em http://rascunho.com.br/desolacao-e-analogia/

Ao ceticismo sucede, frequentemente, o cinismo ou a utopia; não se pode definir de antemão qual dos dois irá paralisar o descrente, e qual o fará produzir. Em Treme ainda (Editora 34, 2015), de Fabio Weintraub, diante da convalescência se ergue uma estranha “autoridade / de quem tudo perdeu”; dito de outra maneira, é da ruína das coisas que surge a possibilidade de lhes dar um nome. Nas palavras do poeta, resta ainda uma

hipótese de balão
neste arremedo de manhã
sem galos
(“Alavanca”)

Fábio Weintraub. Foto: Pádua Fernandes.

A desolação de Weintraub não vem apenas de uma manhã sem galos, evidentemente. Em “Hibisco”, ela aparece como uma flor amassada tal um naco de carne desprezado mesmo pelos cães. Em “Assento”, uma borboleta azul afogada em excrementos no vaso sanitário. E ainda como a explosão de um tumor (“Caroço”) e como espera cruel por uma operação depois da interrupção das seções de quimioterapia (“Bonsai”). Em todos os casos, parece ocorrer como declara o poema “Caixa-preta”: “com quase todos aqui / acontece desse jeito: / aviões sem caixa-preta / despencados em silêncio”.

Conhecíamos a poética do choque em Weintraub, que em Baque (2007) ganhara seu melhor acabamento, e que concedeu a seus poemas a concisão. O poema “Caixa-preta” mostra a continuidade dessa pesquisa, ao evocar o momento da catástrofe dos aviões sem direito à lembrança. De fato, ela continua em poemas como: “Atenção, degrau”, que registra o instantâneo de um tropeço; “Ringue”, que funde as imagens da lona do boxeur e da mesa de operações; ou “A segunda vez”, que relê a máxima de Heráclito a propósito da transformação constante do rio.

Agora, no entanto, o poeta paulista se dedica a algo distinto. Um poema sobre o câncer não lida com a descoberta, mas com a imagem do caroço perpetuando; o outro, sobre um acidente de cozinha, não recupera o momento em que o óleo se derrama sobre a pele, mas aquele em que a epiderme se descola do corpo após o estrago; outro, do momento posterior a um espancamento. Após o baque, perscruta-se aquilo que o poeta denominou, como nome paradigmático, treme ainda. Em “Três bonecas”, Weintraub explica, a partir da personagem “finadinha” (criando a hipótese substantiva do adjetivo no diminutivo como personagem feminino, em procedimento irônico e cruel), a fecundidade de sua pesquisa:

já finadinha pode ser enterrada
na privada, no lixo, no quintal
biodegradável, contém sementes
que brotam em qualquer lugar

Dessa maneira, não é o “aqui e agora” (nem a rememoração) do acidente ou do encontro traumático que rege a maior parte da produção dessa poesia, mas o após. “Como escrever poemas após…?” – a pergunta data dos traumas da primeira metade do século XX, mas talvez seja inesgotável e nunca receba respostas suficientes. Em “Preço”, Weintraub afirma a potência perene do escrever após (“cabelos não caem depois de brancos / da caveira os dentes não despregam / flores secas não desbotam”), mas também expõe o seu alto custo: “nalgum seco recesso / algo em mim quer se fixar / a um altíssimo preço”.

Ao ler Treme ainda, não sabemos se a desolação que se acomoda aos poemas é uma constatação de que “nós mesmos sem sopro” operamos “contra qualquer hipótese / de asa ou metamorfose” (“Assento”), ou se da cética revelação a propósito da ineficácia do poema, “que não tira nem redime / os fungos do mundo” (“Táxi”). De toda maneira, são notáveis ao menos três de suas consequências: uma disfunção espaço-temporal; a produção de outridades; e a redenção analógica. Todas elas se manifestam na própria escritura de Weintraub, muitas vezes fundidas (a separação proposta é puramente metodológica).

O acidente verga o olhar e a memória. É o que sugere o poema “O céu que nos protege”. Nele, o céu é recuperado de maneira fragmentária a partir do olhar que os personagens lançam ao chão: “o céu é sujo nas poças”. A disfunção espaço-temporal, contudo, ganha mais força ao se relacionar com o tema mnemônico.

a memória em banho-maria
e um perfume de baunilha
que o trânsito, a penúria
as dívidas e a idade
não conseguem corromper
(“Pudim”)

É o perfume de baunilha que segue incólume, como elemento destacado da memória, enquanto todo o resto, a que costumamos chamar efetivamente memória (os elementos devolvidos a seus contextos), boia na água fervente (ao fazer vibrar, o calor separa e deforma).

Não é, contudo, a partir de um ensimesmamento memorialístico que Weintraub lida com a desolação. Nem é o outro criado que se identifica com o estilo do autor. Mais precisamente, é a própria produção do outro, que surge em pequenas narrativas construídas sobre pontos de vista bastante diversos, que opera como escritura. Dessa maneira, não é apenas o ritmo e o metro que se modificam, como também a posição axiológica do poema. Algumas vezes, um eu-lírico narra eventos que se passam com um personagem observado (“Pudim”, “Vigilante”); outras, trechos dialógicos costuram a história (“Domingo”, “Orgulho”); há ainda os casos em que as falas que constroem a narrativa parecem vir de um personagem mais ativo que o narrador elipsado, como em “Catraca”. Seja como for, o que une essas narrativas é o próprio modo de sua construção: seus versos aparecem dispersos, como fragmentos de um vaso partido, que não se pode mais recuperar. Em outras palavras, esses versos funcionam como retorno fracassado ao ocorrido. O outro de Weintraub é precário, interrompido e dilacerado (muitas vezes, literalmente).

Sabe-se desde o surgimento da psicanálise que um evento traumático não se perde; antes, se instala no inconsciente. Em alguns desses casos, o alijamento se torna condição fundante do pensamento analógico. É conhecida a história dos combatentes da I Guerra Mundial que retornaram não apenas mutilados, como mudos da guerra de trincheiras; mas se retornaram sem recursos para narrar o ocorrido, vingaram como inventores. Na Alemanha, por exemplo, muitos expressionistas vieram do horror da guerra, que gerou desinteresse pelos fatos e produção de plasticidade.

Em Treme ainda, o alijamento conhece a redenção como máquina de analogias – como se, a quem faltasse a pele, coubesse inventar novas camadas. O poema “Sozinho” expõe a relação entre imagem e perda: “existem tatuadores / especializados em paraplégicos / quando não se sente dor / desenhar é bem mais fácil / maior a margem de improviso”.

O poema “Simpatia” concentra e expõe a máxima tensão da convalescência entre o cinismo e a utopia, operando a produção plástica e analógica da limitação: nele se propagam as imagens do sonho e do pesadelo a partir da rosa embaixo do travesseiro, passando pela evocação de um lago gelado onde se batizariam crianças, devolvendo à vigília uma placa como proteção contra bruxismo.

Treme ainda talvez seja a tomada de consciência de que há ainda alguma vida depois da catástrofe; em seus poemas, é preciso sempre que a vítima decida “se agoniza ou desencarna / já na reta de chegada / no pódio de despedida” (“Emergência”). O livro luz como o “aqui e agora” de uma decisão vital.