Arquivo do autor:Rafael Zacca

Sobre Rafael Zacca

Poeta e crítico literário, cursou a graduação em História e o mestrado em Filosofia na Universidade Federal Fluminense. É membro do corpo editorial da Revista Chão, onde mantém a coluna Sucesso de Sebo. Integra, no Rio de Janeiro, a Oficina Experimental de Poesia.

Claro-escuro em carvão :: capim de Guilherme Gontijo Flores

Texto originalmente publicado em
https://www.revistapessoa.com/artigo/2528/
claro-escuro-em-carvao–capim-de-guilherme-gontijo-flores

Tornou-se usual referir-se ao “contemporâneo” como insígnia distintiva de boa poesia, seja pelo encontro estético da composição com o atual estágio das forças de produção literária (quando se diz, por exemplo, que determinada escrita “é ainda muito moderna”, tem-se em mente certa linha evolutiva dessas forças), seja pela capacidade de sintonização com questões políticas urgentes (é o caso de quando se diz, por exemplo, que determinada escrita é “atravessada por um novo regime de organização dos corpos”, supostamente paralelo ao “nosso”, “exterior” à própria escrita). Um terceiro semblante dessa insígnia vislumbra ainda, em alguma poesia, a possibilidade de encontro dos fatores estéticos e políticos contemporâneos, ou, por vezes, “contracontemporâneos”, isto é, a contrapelo do contemporâneo (a medida temporal qualitativa dos poemas, no entanto, está aí dada, seja pelo alisamento dos pelos, seja pelo escovão a desgrenhá-los), que, de todo modo, prestariam contas com o tempo que lhes foi legado. Continuar lendo

Drummond e o comunismo | Colégio Pedro II

A garotada é rápida. Sacaram muito depressa que Drummond está não apenas destacado da família, mas que também é o único que cruza os braços e se inclina levemente para fora do quadro.

O amigo e professor Luiz Guilherme Barbosa me convidou para conversar com os seus alunos do Colégio Pedro II de Realengo sobre Drummond e comunismo. É, o chamado foi esse mesmo, Carlos Drummond de Andrade e comunismo, com a liberdade para tratar o assunto como eu bem entendesse.

Claro, conversamos sobre A Rosa do Povo. Mas também sobre o anjo torto do primeiro poema do primeiro livro do poeta, sobre fotos de família, e também sobre a orientação política dos alunos dentro da escola, como percebem seus corpos, como acham que seus desejos respondem àquele ambiente, etc. Continuar lendo

Desolação e analogia | “Treme ainda” de Fabio Weintraub

Texto publicado originalmente em http://rascunho.com.br/desolacao-e-analogia/

Ao ceticismo sucede, frequentemente, o cinismo ou a utopia; não se pode definir de antemão qual dos dois irá paralisar o descrente, e qual o fará produzir. Em Treme ainda (Editora 34, 2015), de Fabio Weintraub, diante da convalescência se ergue uma estranha “autoridade / de quem tudo perdeu”; dito de outra maneira, é da ruína das coisas que surge a possibilidade de lhes dar um nome. Nas palavras do poeta, resta ainda uma

hipótese de balão
neste arremedo de manhã
sem galos
(“Alavanca”)

Fábio Weintraub. Foto: Pádua Fernandes.

A desolação de Weintraub não vem apenas de uma manhã sem galos, evidentemente. Em “Hibisco”, ela aparece como uma flor amassada tal um naco de carne desprezado mesmo pelos cães. Em “Assento”, uma borboleta azul afogada em excrementos no vaso sanitário. E ainda como a explosão de um tumor (“Caroço”) e como espera cruel por uma operação depois da interrupção das seções de quimioterapia (“Bonsai”). Em todos os casos, parece ocorrer como declara o poema “Caixa-preta”: “com quase todos aqui / acontece desse jeito: / aviões sem caixa-preta / despencados em silêncio”. Continuar lendo

Canteiro de Obras | UERJ

No início dessa mais recente crise da UERJ (que poderíamos chamar de crime de Estado contra a UERJ, parte integrante de um crime maior, contra a democratização da educação e dos aparelhos culturais do Estado do Rio de Janeiro e do país), o poeta e editor Marcelo Reis de Mello e eu organizamos esse evento no Centro Cultural da UERJ, a COART. Continuar lendo

Materialidade e Concretude | Passagens Escola de Filosofia

Oficina de poesia: Materialidade e Concretude
Maio de 2017
Local: Escola Passagens de Filosofia
4 encontros com 2h de duração

No início de 2017 conversei com Márcia Tiburi a propósito da realização de uma oficina de poesia na Escola Passagens de Filosofia. A escola começou esse ano, e vem desenvolvendo laboratórios de escrita. Além dos alunos inscritos, carreguei comigo 3 companheiros de Oficina Experimental de Poesia: Frederico Klumb, Julya Tavares e Lucas Matos.

Fiquei comovido em saber, algum tempo depois, que uma das alunas, a Camila, incorporou, em sua pesquisa de Mestrado em Atenção Psicossocial, bem como em seu trabalho como psicóloga em um Hospital Público na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, algumas ferramentas compartilhadas durante os nossos encontros; especialmente a técnica de imanência e analogia que desenvolvi com a cartografia verbal. Continuar lendo

“Poesia agora” | Caixa Cultural

> Participação na exposição “Poesia agora“, em 2017, na Caixa Cultural do Rio de Janeiro, com curadoria de Lucas Viriato.

Em meados de 2017, o Lucas Viriato e a Yassu Noguchi me convidaram pra integrar a exposição “Poesia agora” (aqui você encontra a lista completa dxs poetas convidadxs). O meu poema “Remora”, um poema antigo, não publicado em coletânea alguma, integrou um livrinho chamado “Não” que ficava em uma das salas da exposição.

Continuar lendo

Tradução formas plásticas e formas verbais | MAM-RJ

Oficina de tradução: formas plásticas e formas verbais.
Local: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (interior e jardim).
Outubro de 2015.
4h de duração.

Foi a primeira vez que dei uma oficina de criação no MAM-RJ, e, se não me engano, a segunda vez que dei uma oficina experimentando a tradução como forma, como propõe Walter Benjamin. Foi em 2015, no contexto do Prêmio PIPA, a convite da artista plástica Virgínia Mota.

O exercício envolveu a exploração de uma série de ferramentas da criação e da tradução literária, e a tarefa de traduzir um poema qualquer. A tradução seria feita para outra língua, dentro do português, a ser descoberta a partir das formas plásticas que se apresentavam, ali, no Prêmio PIPA. Essa técnica resultaria, posteriormente, em um experimento que realizei com um poema de Sylvia Plath, publicado na revista Escamandro, com apresentação de Luiz Guilherme Barbosa. Continuar lendo

Conversa com o Prêmio Pipa | MAM-RJ

O poeta Heyk Pimenta e eu fomos convidados, em 2015, para conversar com o Prêmio PIPA 2015 sobre arte, coletividade, viver junto e cidade – ou seja, para falar realmente da vida na polis, da política. Na conversa estavam também representantes da Bienal do Mercosul (a Diana Kolker e o Rafa Éis) e do Museu do Bispo do Rosário (a Bianca Bernardo). Foi a primeira vez que a Oficina Experimental de Poesia falou no MAM-RJ. Agradeço o convite feito pela Virgínia Mota e pelo Jean D. Soares.

O site do Prêmio Pipa divulgou o evento, clica aqui pra ver.

“Ils, Ellos, Eles” | CMAHO

> Participação na exposição
“Ils, Ellos, Eles”
, de Julieta Hanono
no CMAHO, de nov.16 a fev.17,
com curadoria de Izabela Pucu.

Em meados de 2016, a então diretora do Centro Muncipal de Artes Helio Oiticica, Izabela Pucu, proporcionou um encontro entre eu e a artista argentina Julieta Hanono, cujo trabalho de auto-tradução ficcional opera no limite tangenciado pelo texto, pela imagem e pela voz. Esse internacionalismo dos meios expressivos é, de alguma forma, análogo ao internacionalismo da autora, nômade desde o fim da adolescência, na experiência traumática da ditadura argentina, que sequestrou Julieta quando ela integrava o grupo revolucionário dos Montoneros. Continuar lendo

Carta para Leila Danziger a propósito de seu mais novo livro de poemas

por Rafael Zacca
2016

É noite, Leila Danziger, 2009

Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 2016

Querida Leila,

li teu livro todo entre a sala de triagem e a sala de raio-x no Hospital Badim, hoje, enquanto esperava que a Ana fizesse seus exames para descobrir por que doía tanto a sua barriga. Um dia antes foi ela mesma quem me mostrou um poema seu: “Não sei o que fazer / com tantas radiografias / de seus pulmões (…) seus ossos são luz.” Não li até o final, não tive olhos, se afogaram todos e eu fingi estar com alergia ao perfume, tenho o olfato e os olhos frágeis pra essas coisas, pra poemas, perfumes, metrô, raio-x. Continuar lendo