Arquivo do autor:Rafael Zacca

Sobre Rafael Zacca

Poeta e crítico literário, cursou a graduação em História e o mestrado em Filosofia na Universidade Federal Fluminense. É membro do corpo editorial da Revista Chão, onde mantém a coluna Sucesso de Sebo. Integra, no Rio de Janeiro, a Oficina Experimental de Poesia.

Gandolfi: “Insert Coin”, Chiste e Infância

O poema “Insert Coin” integra o volume Escala Richter, de Leonardo Gandolfi

2 ou 3 palavras sobre “Insert Coin”, de Leonardo Gandolfi

por Rafael Zacca
22/4/2016

Na copa do mundo de 1994 eu tinha 7 anos, e abandonava algumas obsessões em prol de outras. Larguei a mamadeira tarde, e então vieram, por exemplo, os babaloos: vinte por dia, ao todo, enfiando de cinco em cinco na boca. A criança sempre pede por mais. Principalmente se a brincadeira envolve o espanto ou a vertigem. Sempre mais um susto, mais um voo, mais um terremoto. Do outro lado da rua, em frente à minha casa, além dos chicletes, eu podia jogar fliperama. As palavras “insert coin” (talvez as primeiras, em inglês, que as crianças da minha geração aprenderam) piscavam na tela, e, fossem infinitas as moedas, seria infinito o jogo. Continuar lendo

“Cu” como campo de testes em “Ocupa”, de Dimitri BR

Quatro notas sobre uso, corpo e linguagem

por Rafael Zacca
3/10/2016

1. Que a nós não nos seja dado ousode todo o corpo, o simples uso do corpo, testemunham as constantes investidas da primeira infância – já liberta da necessidade do bebê – contra o regramento corporal (frequentemente compreendidas sob o signo precário da ignorância). Quando postulamos, por exemplo, uma “fase anal” naqueles aproximados três anos de vida depois da chamada “fase oral”, que supostamente deveria ser superada no desenvolvimento psicossexual da pequena criatura até o seu amadurecimento genital, interditamos uma coisa tão preciosa quanto a ginástica ou a teoria. Não interditamos, simplesmente, o livre uso do cu, mas a possibilidade mesma de teste – e, portanto, de plurisignificância – prometida em cada parte corporal. Dois livros recentes se debatem com esse problema. Um deles, Corpo de festim, de Alexandre Guarineri, devolve o tabu para o centro das questões de valorização e desvalorização dos corpos e da vida, culminando no par catártico “ânus humano (.) ônus santo”.[1] Por sua vez, Ocupa, de Dimitri BR, parece querer restituir o campo de testes corporal que a vida adulta na civilização pretende recalcar. E, assim como para o poeta o teste da linguagem é condição de possibilidade de sua produção ou de sua demolição de sentido, estabelecendo certa “economia” dos elementos em sua arquitetura, da mesma forma o teste anal quer constituir uma “ecologia” do corpo.[2] O poema que abre o livro, não por acaso, é intitulado “Desperdício”: “pesquisas apontam / há quem use menos / de 10% do corpo / para fazer sexo”. Continuar lendo

“Boca Suja” | Festival SESC de Inverno

O poeta Ramon Nunes Mello convidou alguns poetas para participarem do projeto “Boca Suja”. Pelas minhas contas são 10 poetas, que têm seus poemas impressos em guardanapos e distribuídos nos restaurantes associados do SESC, e eu estou animado com a chance de causar alguma indigestão com meu poema “História da tristeza entre as Ratazanas ou Uma ecologia sentimental”.

Faça chegar esta carta ao Marona e Entregue este bilhete ao João Gabriel

por Rafael Zacca
11/4/2017

Marona,

a primeira vez que li um livro teu (e eu cheguei tarde aos teus livros) foi o Óleo das horas dormidas, um livro dividido em tipos de sono – cujo título me desagradou na época, mas hoje acho bonito – à época só fiz associar à tua figura, mas que hoje penso ser ele uma das expressões da insônia da época. Aliás, sempre que conversamos penso ser você uma espécie de Mandelstam deste século (porque aqui estou pensando naquele ensaio, já meio batido, do Agamben em que ele lê o Mandelstam, mas é preciso que a gente por aqui fale por outros termos). Será você talvez o primeiro de nós a não recuar para fazer um poema-carta contra a ditadura-inseto, será talvez um de nós a cair por uma causa justa, travestida (e nem por isso falsa, mas justamente por isso mais autêntica, como gosta de ressaltar a Agrado de Todo sobre mi madre, do Almodóvar – “soy muy autentica”) de patologia incurável, de eterno retorno do infantil, e será por isso mesmo o nosso ato político mais bonito e mais efetivo. Continuar lendo

Oficina de Sonhos | CIEP Tancredo Neves

Oficina de criação a partir de sonhos
31/07/2017
Local: CIEP Tancredo Neves
2h de duração

Mais importante do que se perguntar sobre o que acontecerá com a poesia quando ela for levada às mais distintas atividades — tão distantes do mergulho na linguagem que poéticas tradicionais e contemporâneas justamente defendem como ação fundamental de qualquer poesia — é se perguntar o que acontece com essas atividades quando, querendo ou não, de maneira mais ou menos consciente, os envolvidos nessa atividade se molham descuidadamente (às vezes apenas as mãos, às vezes os cabelos) nesse mar de palavras e conexões linguísticas que configura o fazer poético. Um fazer que suspende a lógica do tempo, e a todo momento parece interromper as outras atividades. E o faz menos por qualquer qualidade do contato com esta água estranha do poema, do que por mero contágio. O que acontece, por exemplo, quando profissionais da educação do município do Rio de Janeiro interrompem a primeira reunião de organização do semestre para escrever?

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Poesia e as formas do agir comunitário | UFSJ

Oficina: Poesia e as formas do agir comunitário
24 a 27/07/2017
Local: Universidade Federal de São João del-Rei | Inverno Cultural
16h de duração

Aulas:

1. O gênio criador versus o gênio coletivo
2. Futurismo e Dadaísmo
3. Surrealismo e onirologia
4. Pós-modernismo BR e coletivos hoje

Foram quatro dias intensos, com uma pequena turma de 7 participantes, a maioria composta de universitários graduandos ou pós-graduandos, e uma aluna de 13 anos.

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Tradução PTPT | CMAHO

Oficina de Tradução PT-PT
28/01/2017
Local: CMAHO
4h de duração

Em 2016, fui convidado pela artista argentina Julieta Hanono para colaborar com sua exposição “Ils, Ellos, Eles” (com curadoria de Izabela Pucu, então diretora do Centro Municipal de Artes Helio Oiticica) com um Laboratório de Tradução Desorientada, Desfuncionalizada e Suspensa. Traduzi alguns trabalhos de autoficção da artista para diferentes linguagens. O procedimento foi parecido com o que eu já realizara, no mesmo ano, com um poema de Sylvia Plath, I am Vertical (publicado na revista Escamandro). O trabalho para a exposição resultou em uma sala, um laboratório, com as traduções suspensas e uma mesa que dava algumas ferramentas para que os visitantes se aventurassem em continuar o trabalho, virtualmente infinito. Continuar lendo

Pesquisa atual:

“Para uma crítica do poema como crítica da vida: Walter Benjamin, intérprete de sonhos da humanidade”, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUC-Rio. Trata-se de um desdobramento da pesquisa de mestrado desenvolvida na UFF, intitulada “Invervações: Materialismo e Estética em Walter Benjamin”.

Link para o currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/9636653089959213

Dissertação de Mestrado (Filosofia / UFF):

> “Inervações”: Estética e Materialismo em Walter Benjamin

Participação em núcleos de pesquisa:

> Núcleo de Pesquisa Correspondências: Adorno e Benjamin

Participação em coletâneas:

> Poesia contemporânea: reconfigurações do sensível (no prelo): com um capítulo intitulado “4 poemas contemporâneos atravessam a rua sem cuidado”
> Estética moderna e contemporânea (Relicário, 2017): com um capítulo sobre “Aparência e verdade em Walter Benjamin e Sigmund Freud”.
> Helio Oiticica para além dos mitos (2016, CMAHO): com o capítulo “Éden é o mundo: só tem razão de existir os inventores”

Publicações dispersas:

> “Walter Benjamin nos extremos”: revista O que nos faz pensar, vol. 26, nº40
> “Do conceito de Gehalt em Walter Benjamin“: revista Limiar, vol. 3, nº6
> “Distração: atitude heróica diante da metrópole“: revista FronteiraZ, nº16
> “As máscaras da negatividade: o feminino na Odisseia“: revista Exagium, nº 12
> “A palavra roçada: Memória, Tradução e Neobarroco na poesia de Josely Vianna Baptista“: revista Escrita, nº 19.
> “Wim Wenders leitor de Walter Benjamin“: revista Escrita, nº16
> “Charles Baudelaire e a Modernidade“: artigo paradidático para o Núcleo de Estudos Contemporâneos do curso de História da UFF

Livros de poemas:

> A estreita artéria das coisas (no prelo)
> Mega Mao (Caju, 2018)
> Mini Marx (7Letras, 2017)
> Kraft | Rafael Zacca (Cozinha Experimental, 2015) [download gratuito]

Participação em coletâneas e antologias:

> A nossos pés, (7Letras, 2017)
> Cadernos do CEP, vol I (CEP, Colaboratório, 2017) [download gratuito]
> (org.) SDDS1917 (independente, várias edições, 2017)
> (org.) Isoporzinho-arrastão (OEP, 2016)

Livros de oficina:

> (co-autor) Almanaque Rebolado (Azougue, Cozinha Experimental e Garupa, 2017)

Livros de tradução:

> Eu estou de pé (no prelo)

Poemas publicados em revistas:

> “Uma barata no cemitério de Inhaúma“: revista Escamandro
> “9 traduções de I am vertical“: revista Escamandro
> “Um sonho“: revista Submersa
> “A marina das coisas”, “Demora” e “O elefante e a flor”: revista Escamandro
> “Tarda”, “Relógio normal” e “Lívida”: revista Mallarmargens
> “Os olhos de Helena”: revista Garupa
> “O colecionador”: revista Arte ConTexto

Traduções:

> “I am vertical” em multitradução: revista Escamandro
> A morte a morte e a morte de Sylvia Plath: site da Oficina Experimental de Poesia
> Arturo Carrera: revista Modo de Usar