Arquivo da categoria: alquimia agora

Nada de tarefa da crítica em 3 ou 4 teses espirituosas. Cada obra demanda da crítica uma solução à altura. Listas são instrutivas. Muitas dessas críticas foram publicadas em outros veículos, para os quais tenho colaborado, como o Suplemento Literário de Minas Gerais, o Jornal Rascunho e, mais recentemente, a Revista Escamandro.

Desolação e analogia | “Treme ainda” de Fabio Weintraub

Texto publicado originalmente em http://rascunho.com.br/desolacao-e-analogia/

Ao ceticismo sucede, frequentemente, o cinismo ou a utopia; não se pode definir de antemão qual dos dois irá paralisar o descrente, e qual o fará produzir. Em Treme ainda (Editora 34, 2015), de Fabio Weintraub, diante da convalescência se ergue uma estranha “autoridade / de quem tudo perdeu”; dito de outra maneira, é da ruína das coisas que surge a possibilidade de lhes dar um nome. Nas palavras do poeta, resta ainda uma

hipótese de balão
neste arremedo de manhã
sem galos
(“Alavanca”)

Fábio Weintraub. Foto: Pádua Fernandes.

A desolação de Weintraub não vem apenas de uma manhã sem galos, evidentemente. Em “Hibisco”, ela aparece como uma flor amassada tal um naco de carne desprezado mesmo pelos cães. Em “Assento”, uma borboleta azul afogada em excrementos no vaso sanitário. E ainda como a explosão de um tumor (“Caroço”) e como espera cruel por uma operação depois da interrupção das seções de quimioterapia (“Bonsai”). Em todos os casos, parece ocorrer como declara o poema “Caixa-preta”: “com quase todos aqui / acontece desse jeito: / aviões sem caixa-preta / despencados em silêncio”. Continuar lendo

Carta para Leila Danziger a propósito de seu mais novo livro de poemas

por Rafael Zacca
2016

É noite, Leila Danziger, 2009

Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 2016

Querida Leila,

li teu livro todo entre a sala de triagem e a sala de raio-x no Hospital Badim, hoje, enquanto esperava que a Ana fizesse seus exames para descobrir por que doía tanto a sua barriga. Um dia antes foi ela mesma quem me mostrou um poema seu: “Não sei o que fazer / com tantas radiografias / de seus pulmões (…) seus ossos são luz.” Não li até o final, não tive olhos, se afogaram todos e eu fingi estar com alergia ao perfume, tenho o olfato e os olhos frágeis pra essas coisas, pra poemas, perfumes, metrô, raio-x. Continuar lendo

Gandolfi: “Insert Coin”, Chiste e Infância

O poema “Insert Coin” integra o volume Escala Richter, de Leonardo Gandolfi

2 ou 3 palavras sobre “Insert Coin”, de Leonardo Gandolfi

por Rafael Zacca
22/4/2016

Na copa do mundo de 1994 eu tinha 7 anos, e abandonava algumas obsessões em prol de outras. Larguei a mamadeira tarde, e então vieram, por exemplo, os babaloos: vinte por dia, ao todo, enfiando de cinco em cinco na boca. A criança sempre pede por mais. Principalmente se a brincadeira envolve o espanto ou a vertigem. Sempre mais um susto, mais um voo, mais um terremoto. Do outro lado da rua, em frente à minha casa, além dos chicletes, eu podia jogar fliperama. As palavras “insert coin” (talvez as primeiras, em inglês, que as crianças da minha geração aprenderam) piscavam na tela, e, fossem infinitas as moedas, seria infinito o jogo. Continuar lendo

“Cu” como campo de testes em “Ocupa”, de Dimitri BR

Quatro notas sobre uso, corpo e linguagem

por Rafael Zacca
3/10/2016

1. Que a nós não nos seja dado ousode todo o corpo, o simples uso do corpo, testemunham as constantes investidas da primeira infância – já liberta da necessidade do bebê – contra o regramento corporal (frequentemente compreendidas sob o signo precário da ignorância). Quando postulamos, por exemplo, uma “fase anal” naqueles aproximados três anos de vida depois da chamada “fase oral”, que supostamente deveria ser superada no desenvolvimento psicossexual da pequena criatura até o seu amadurecimento genital, interditamos uma coisa tão preciosa quanto a ginástica ou a teoria. Não interditamos, simplesmente, o livre uso do cu, mas a possibilidade mesma de teste – e, portanto, de plurisignificância – prometida em cada parte corporal. Dois livros recentes se debatem com esse problema. Um deles, Corpo de festim, de Alexandre Guarineri, devolve o tabu para o centro das questões de valorização e desvalorização dos corpos e da vida, culminando no par catártico “ânus humano (.) ônus santo”.[1] Por sua vez, Ocupa, de Dimitri BR, parece querer restituir o campo de testes corporal que a vida adulta na civilização pretende recalcar. E, assim como para o poeta o teste da linguagem é condição de possibilidade de sua produção ou de sua demolição de sentido, estabelecendo certa “economia” dos elementos em sua arquitetura, da mesma forma o teste anal quer constituir uma “ecologia” do corpo.[2] O poema que abre o livro, não por acaso, é intitulado “Desperdício”: “pesquisas apontam / há quem use menos / de 10% do corpo / para fazer sexo”. Continuar lendo

Faça chegar esta carta ao Marona e Entregue este bilhete ao João Gabriel

por Rafael Zacca
11/4/2017

Marona,

a primeira vez que li um livro teu (e eu cheguei tarde aos teus livros) foi o Óleo das horas dormidas, um livro dividido em tipos de sono – cujo título me desagradou na época, mas hoje acho bonito – à época só fiz associar à tua figura, mas que hoje penso ser ele uma das expressões da insônia da época. Aliás, sempre que conversamos penso ser você uma espécie de Mandelstam deste século (porque aqui estou pensando naquele ensaio, já meio batido, do Agamben em que ele lê o Mandelstam, mas é preciso que a gente por aqui fale por outros termos). Será você talvez o primeiro de nós a não recuar para fazer um poema-carta contra a ditadura-inseto, será talvez um de nós a cair por uma causa justa, travestida (e nem por isso falsa, mas justamente por isso mais autêntica, como gosta de ressaltar a Agrado de Todo sobre mi madre, do Almodóvar – “soy muy autentica”) de patologia incurável, de eterno retorno do infantil, e será por isso mesmo o nosso ato político mais bonito e mais efetivo. Continuar lendo