Arquivo da tag: Carlos Drummond de Andrade

Claro-escuro em carvão :: capim de Guilherme Gontijo Flores

Texto originalmente publicado em
https://www.revistapessoa.com/artigo/2528/
claro-escuro-em-carvao–capim-de-guilherme-gontijo-flores

Tornou-se usual referir-se ao “contemporâneo” como insígnia distintiva de boa poesia, seja pelo encontro estético da composição com o atual estágio das forças de produção literária (quando se diz, por exemplo, que determinada escrita “é ainda muito moderna”, tem-se em mente certa linha evolutiva dessas forças), seja pela capacidade de sintonização com questões políticas urgentes (é o caso de quando se diz, por exemplo, que determinada escrita é “atravessada por um novo regime de organização dos corpos”, supostamente paralelo ao “nosso”, “exterior” à própria escrita). Um terceiro semblante dessa insígnia vislumbra ainda, em alguma poesia, a possibilidade de encontro dos fatores estéticos e políticos contemporâneos, ou, por vezes, “contracontemporâneos”, isto é, a contrapelo do contemporâneo (a medida temporal qualitativa dos poemas, no entanto, está aí dada, seja pelo alisamento dos pelos, seja pelo escovão a desgrenhá-los), que, de todo modo, prestariam contas com o tempo que lhes foi legado. Continuar lendo

Drummond e o comunismo | Colégio Pedro II

A garotada é rápida. Sacaram muito depressa que Drummond está não apenas destacado da família, mas que também é o único que cruza os braços e se inclina levemente para fora do quadro.

O amigo e professor Luiz Guilherme Barbosa me convidou para conversar com os seus alunos do Colégio Pedro II de Realengo sobre Drummond e comunismo. É, o chamado foi esse mesmo, Carlos Drummond de Andrade e comunismo, com a liberdade para tratar o assunto como eu bem entendesse.

Claro, conversamos sobre A Rosa do Povo. Mas também sobre o anjo torto do primeiro poema do primeiro livro do poeta, sobre fotos de família, e também sobre a orientação política dos alunos dentro da escola, como percebem seus corpos, como acham que seus desejos respondem àquele ambiente, etc. Continuar lendo

“Cu” como campo de testes em “Ocupa”, de Dimitri BR

Quatro notas sobre uso, corpo e linguagem

por Rafael Zacca
3/10/2016

1. Que a nós não nos seja dado ousode todo o corpo, o simples uso do corpo, testemunham as constantes investidas da primeira infância – já liberta da necessidade do bebê – contra o regramento corporal (frequentemente compreendidas sob o signo precário da ignorância). Quando postulamos, por exemplo, uma “fase anal” naqueles aproximados três anos de vida depois da chamada “fase oral”, que supostamente deveria ser superada no desenvolvimento psicossexual da pequena criatura até o seu amadurecimento genital, interditamos uma coisa tão preciosa quanto a ginástica ou a teoria. Não interditamos, simplesmente, o livre uso do cu, mas a possibilidade mesma de teste – e, portanto, de plurisignificância – prometida em cada parte corporal. Dois livros recentes se debatem com esse problema. Um deles, Corpo de festim, de Alexandre Guarineri, devolve o tabu para o centro das questões de valorização e desvalorização dos corpos e da vida, culminando no par catártico “ânus humano (.) ônus santo”.[1] Por sua vez, Ocupa, de Dimitri BR, parece querer restituir o campo de testes corporal que a vida adulta na civilização pretende recalcar. E, assim como para o poeta o teste da linguagem é condição de possibilidade de sua produção ou de sua demolição de sentido, estabelecendo certa “economia” dos elementos em sua arquitetura, da mesma forma o teste anal quer constituir uma “ecologia” do corpo.[2] O poema que abre o livro, não por acaso, é intitulado “Desperdício”: “pesquisas apontam / há quem use menos / de 10% do corpo / para fazer sexo”. Continuar lendo