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Desolação e analogia | “Treme ainda” de Fabio Weintraub

Texto publicado originalmente em http://rascunho.com.br/desolacao-e-analogia/

Ao ceticismo sucede, frequentemente, o cinismo ou a utopia; não se pode definir de antemão qual dos dois irá paralisar o descrente, e qual o fará produzir. Em Treme ainda (Editora 34, 2015), de Fabio Weintraub, diante da convalescência se ergue uma estranha “autoridade / de quem tudo perdeu”; dito de outra maneira, é da ruína das coisas que surge a possibilidade de lhes dar um nome. Nas palavras do poeta, resta ainda uma

hipótese de balão
neste arremedo de manhã
sem galos
(“Alavanca”)

Fábio Weintraub. Foto: Pádua Fernandes.

A desolação de Weintraub não vem apenas de uma manhã sem galos, evidentemente. Em “Hibisco”, ela aparece como uma flor amassada tal um naco de carne desprezado mesmo pelos cães. Em “Assento”, uma borboleta azul afogada em excrementos no vaso sanitário. E ainda como a explosão de um tumor (“Caroço”) e como espera cruel por uma operação depois da interrupção das seções de quimioterapia (“Bonsai”). Em todos os casos, parece ocorrer como declara o poema “Caixa-preta”: “com quase todos aqui / acontece desse jeito: / aviões sem caixa-preta / despencados em silêncio”. Continuar lendo